A MORTE É BEM-VINDA

A MORTE É BEM-VINDA!  Coisa estranha de se dizer, né? Mas, é isso. Ela é bem-vinda apesar de ser tão evitada. Ela é aquela de quem não queremos lembrar. Aliás, na verdade, nem lembramos mesmo. Passamos a vida como se ela não existisse. Como somos capazes de tal estupidez?!

Tudo bem… a morte traz consigo muitas agruras e quem com sanidade vai gostar disto? Ninguém, é claro. Ninguém vai querer perder quem ama. Então, negamos os fatos dizendo: “não é verdade”, “não acredito”, “é mentira”, “não é ele/ela”, “não pode ser”. Tentamos nos convencer de que o que vemos é um sonho ruim. Nada está acontecendo conosco. Negamos viementemente que a vida que conhecemos está desmoronando ou que nem existe mais. dizemos a nós mesmos: “está tudo bem, vai ficar tudo bem”. E deitamos a chorar.

Quando a morte chega, tanto os indivíduos quanto as nações choram suas ausências. Ficamos a remoer boas lembranças, a sentir medo de como será a vida sem presença tão valiosa. Folhamos álbuns de fotografias, farejamos essências e fluidos corporais, reencontramos o amado no rosto dos filhos, dos pais… Corremos ao encontro dessa doce memória à menor provocação, um som, uma brisa, uma luz…

Brigamos com o mundo e com quem partiu. Como foi capaz de nos abandonar? Como ousou ser  capaz de nos lançar neste desengano? Como não nos permitiu dizer adeus? Procuramos por culpados e clamamos por justiça. Quem é o responsável pela nossa dor? Quem dirigia, quem bebeu, quem operou, quem não tratou, quem não ouviu? Precisamos de uma cabeça, precisamos vingar nossa dor. Neste turbilhão de emoções, nos colocamos como vítimas. E aí de quem sugerir outro papel para “nos otros“.

Alheia a tudo isso a vida segue e se renova. Sem que possamos perceber… mudamos.

A morte nos força a isso. A dança das cadeiras não pára. De repente descobrimos forças e fraquezas só reveladas pela falta do outro. Somos empurrados rumo à maturidade através do sofrimento. Somos obrigados a aprender a nos bastar, nos acalentar e abrigar. Somos compelidos a arrebentar fantasias e construir novas verdades. Por isso, digo que ela é bem vinda. É bem-vinda porque ao contrário do que diz nossa dor ela sempre se transforma em renascimento. E a dor que traz consigo nos garante que estamos ainda vivos e que devemos honrar e agradecer cada cada momento até mesmo os mais difíceis. A morte é bem-vinda. Renascer, repensar, reformar, redirecionar é imperativo com sua chegada porque todo fim guarda um começo. E se damos boas-vindas a ele também abraçamos o fim.