Autossabotagem: aos cinquenta é mais fácil identificá-la e afastar-se dela.

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A autossabotagem é causa comum de infelicidade apesar de ser invisível para muitos, pois trata-se de um comportamento inconsciente. É repetitivo, compulsivo e originado nos sofrimentos não apaziguados e mal-resolvidos, na maioria das vezes, na infância. As formas da autossabotagem são muitas e este post não tem capacidade ou pretensão de descrever cada uma delas. Mesmo assim, vale a pena conversar sobre algumas.

Já viu quantas vezes repetimos atitudes destrutivas mesmo conhecendo o provável resultado delas? Sabemos que, se somos infiéis, colocamos em risco o vínculo construído com a pessoa que amamos, apesar deste relacionamento ser a “nossa vida”; se somos displicentes e descompromissados perdemos nosso emprego, apesar de amarmos nossa profissão; se não mantemos uma dieta equilibrada, aumentamos de peso, apesar de nos entristecermos com nossa imagem. Vamos, sem querer, colocando em risco tudo o quê nos é mais caro. Sofremos e fazemos sofrer, sempre na tentativa de encontrar a felicidade. Tudo vai bem e, de repente, começamos a fazer escolhas ruins.

Por que fazemos algo que nos prejudica? E quais são as origens da autossabotagem? Bem, primeiro, não percebemos nosso comportamento repetitivo e em segundo ignoramos ou negamos a importância do que estamos jogando fora, seja o casamento, a profissão ou a vida. Medo de ser feliz? Talvez. Mas creio que principalmente resgate e raiva mesclados com culpa. Esta última sempre infundada. Impotência, resgate, raiva e culpa? Sim, resgate, raiva e culpa.

Encontramos o resgate quando escolhemos um parceiro com as mesmas faltas que nos fragilizavam na infância. Naquele momento, nos sentíamos impotentes. Agora adultos, procuramos e, pior, encontramos um parceiro que precisa de nós para se salvar. Se ele é adicto, vamos curá-lo com nosso amor. Se é agressivo, também nosso amor é a resposta. E nos damos até o esgotamento de nossas forças, para então dizermos “não aguento mais”. Isso se tivermos o mínimo de saúde mental. Nesta situação, com muito sofrimento, terminamos o relacionamento e quando vemos estamos vivendo a mesma situação agora com outro parceiro. Isso ocorre porque queremos salvar o progenitor doente da nossa infância. E nos sentimos culpados por não termos conseguido. Nosso insucesso torna-se a justificativa para a crença de que não merecemos ser amados/cuidados, não merecemos receber. Isso oculta a autossabotagem. Repetimos a experiência na esperança de um resgate; agora de nós mesmos. Nosso lema é: ” se eu for boazinha você vai me amar?”

Já a raiva também nasce da impotência. Mas, desta vez, ela, a impotência, não dá as mãos para a culpa e sim para a revanche. Quando temos pais muito exigentes e pouco amorosos, crescemos nos sentindo insuficientes, injustiçados e jamais reconhecidos. Nos obrigamos a agradar para sobreviver e esta obrigação provoca raiva porque o amor que recebemos não é incondicional. O que fazemos então? Trabalhamos muito e vencemos para provar nossa capacidade. Mas, chegando ao auge, fazemos algo errado e o sucesso vai por água abaixo. Por que, se nos empenhamos tanto para chegar no topo, depois nos descuidamos? Revanche é a resposta. Revanche contra nossos pais. Nosso inconsciente diz: “não vou te dar o prazer de me ver com sucesso, meu fracasso será o teu prêmio”.

Bem ruim, não é? Mas a vantagem de estar com cinquenta anos é ter vivido ou ter visto outros viverem estas situações. E sobretudo, conseguir identifica a autossabotagem com habilidade e rapidez. Para isso, nosso maior aliado é o autoconhecimento. Conhecer a si mesmo exige tempo, dedicação e humildade. Cultivando a auto-observação e sendo capaz de criticar nossa maneira de agir, evitamos a repetição do comportamento destrutivo. Para entender os “porquês” que regem esse ciclo vicioso, além destas ações, pode ser necessário ajuda profissional.

Não exite em buscar ajuda. Acima de tudo, compartilhe suas reflexões, fale e ouça seus pensamentos, pois a exposição deles é o primeiro passo para uma vida nova ainda antes dos cinquenta anos.